Este artigo é uma compilação de textos da Dra. Mariagrazia G. Sassi, numa tradução de Andrée Samuel.
[nota do Redator]
[Obs.: Este artigo já foi publicado no Boletim do CPSP No. 9.]
A espinha dorsal do processo de psicossíntese, do "conhece-te, possua-te,
transforma-te" é a desiden-tificação. Sem essa etapa o processo não é possível.
Roberto Assagioli diz que "somos dominados por tudo aquilo com que nos identificamos,
e dominamos tudo aquilo do qual estamos desidentificados".
Para possuir a si mesmo é necessária a desidentificação e harmonização das funções,
no sentido de uma estrela equilibrada e correspondente à vontade (cf. "O Ato da Vontade",
de Roberto Assagioli, Ed. Pensamento). As leis psicológicas são descrições de dinamismos
da psique. O vocábulo "lei", de fato, é para ser compreendido na mesma acepção com que a
física o entende: necessidade daquele dinamismo. A identificação inconsciente faz o
dinamismo sujeitar-se a quê?. A desidentificação, ao contrário, permite usá-lo usar
o que? Quem? para finalidades pré-escolhidas. Para que a resposta aos inputs que a
vida propõe não seja reação mas resposta flexível e sábia, isto é, útil e inteligente,
é preciso ser capaz de desidentificação em 360o (a rigor, essa graduação indica retorno
ao ponto de partida; é isso mesmo?). Sem isto, não existem nem mesmo verdadeiras relações
humanas, porque cada relação objetal (o termo existe assim em português) é falseada pelas
identificações inconscientes.
Quando nos identificamos com algo externo, na realidade é sempre com a imagem
interna do objeto em questão e não com a realidade do objeto. Por isso tal identificação
é filtrada pelo estado de consciência, e do quanto daquela objetividade estamos em
condições de entender.
A desidentificação é necessária também para tornarmo-nos sempre mais inclusivos
e para levar o próprio fenômeno a exprimir todas as potencialidades. É óbvio que
aquilo que ainda não foi expresso, não pode fazer parte das identificações precedentes.
É necessário desidentificar-se então para adquirir autenticidade, e desidentificar-se
também para acelerar o processo de expansão da consciência.
Reflitamos sobre o fato de que a vida é, de qualquer modo, um longo processo de
desidentificação: o tempo e os eventos encarregam-se de tirar-nos as identificações.
Por outro lado, a forma tende a manter-se a mesma e é necessária uma distribuição de
energia para diluir uma forma. A fusão dos metais, por exemplo, requer que haja
fornecimento de energia térmica para que a forma se liqüefaça, isto é, torne-se
fluída e maleável para uma outra forma. A energia que distribuímos para o derretimento
das identificações, requerido pelos eventos da vida, é o sofrimento: sofre-se, e
sofre-se muito cada vez que a vida tira forçosamente uma identificação. Se se está
desidentificado, não se paga tributo de sofrimento quando a vida subtrai algo. Pelo
contrário, o prazer de usufruir de determinada coisa,não é por nada diminuído enquanto
se tem esta coisa, mesmo estando-se desidentificado dela!
Desidentificar-se, enfim, para ativar a intuição e favorecer a humanidade para um
futuro melhor. Se todos estiverem identificados nas velhas formas comportamentais e
sociais, quem leva o mundo adiante?
(#) Mariagrazia Giovanna Sassi é Psicóloga e psicoterapeuta. Há 12 anos, é
membro do Conselho Diretor do Instituto de Psicossíntese de Florença, Itália.
Foi Vice-Presidente por três anos e Presidente por 6 anos do mesmo Instituto.
É Diretora do Centro de Psicossíntese de Bologna, Itália.