O Self Transpessoal 
por Diana Whitmore (#)
Este texto foi extraído do livro "Psychosynthesis in Education" (cap. 7), de Dianna Whitmore
e traduzido por Andrée Samuel. [nota do Redator]
[Obs.: Este artigo já foi publicado no Boletim do CPSP No. 8.]
A Psicossíntese transpessoal é um processo que possibilita à pessoa explorar aquelas
regiões cheias de mistério e maravilha que estão além da consciência ordinária. Chamamos
estas regiões de supraconsciente - fonte das nossas mais altas intuições, inspirações,
estado de iluminação. A exploração culmina com a descoberta do Self, nossa essência
verdadeira, além das máscaras e dos condicionamentos.
Esta dimensão transpessoal pode muito bem ser o cerne da questão e merece ser olhada
com atenção. Qual é precisamente o seu valor e como pode nos servir? O que podemos esperar
ganhar quando buscamos entrar em contato e experienciamos este nível mais elevado ou
mais profundo do nosso ser? Paradoxalmente a resposta repousa na pergunta - ESPERANÇA.
Sem a existência, ou pelo menos o reconhecimento do potencial de um nível da vida que
transcenda o nosso dia a dia, a condição humana seria, algumas vezes, desesperançosa,
complexa e confusa. Sem um vislumbre para além da realidade existencial, a tarefa de
realizar uma vida plena seria opressiva. O contato com essa dimensão misteriosa também
promete aumentar o desenvolvimento das funções física, emocional e mental.
É somente através do despertar da dimensão transpessoal que as respostas às mais
profundas questões existenciais podem ser descobertas. É essa dimensão que constrói
uma ponte entre o funcionamento cotidiano da personalidade e o nosso Self mais profundo
do qual a maioria dentre nós tem pouca consciência.
Uma lei fundamental da Psicossíntese é que cada pessoa contém dentro de si,
potencialmente, tudo aquilo que necessita para crescer e desenvolver-se. Deixo à
especulação se esta Lei é verdadeira ou não. O que podemos tomar como verdade é que
trabalhar psicoespiritualmente dentro de uma estrutura afirmativa e positiva conduz
a resultados mais saudáveis e efetivos.
Trabalhar no domínio transpessoal favorece o sentido de quem sou, onde desejo ir
com a minha vida e desenvolver a força e as qualidades que me capacitam para mover-me
na direção escolhida. Inclui uma busca pelo significado (sentido), valor e propósito,
busca da harmonia e do balanceamento da personalidade e por um Self autêntico.
Todas as nossas experiências transpessoais são elaborações distantes de emanações,
qualidades e energias do Self; não é o Self em si. Podemos usar a analogia do sol para
ilustrar isto: o Self é como o sol que está no centro distante do nosso sistema solar
e que permanece lá, ainda que seus raios e sua enegia penetrem em todo o sistema solar.
Assim, a radiância e as emanações do Self penetram todo nosso ser. É praticamente
impossível descrever adequadamente a experiência do Self. No Oriente é descrita como
vácuo, o ponto do "nada" , o Tao, ser puro, energia essencial, a jóia no lótus. Não é
uma experiência; é a fonte de toda experiência - assim como o sol é a fonte de toda luz.
O conhecimento a respeito do nosso Self conecta-nos com as qualidades do
supraconsciente de perfeita paz, tranqüilidade, unidade e serenidade que apontam
para uma realidade transcendente. Há uma combinação de individualidade e universalidade,
de sentir-se único e também parte de um todo maior, uma solidariedade com toda a vida.
Existe um paradoxo entre tornar-se e ser: o de continuamente desenvolver-se na direção
de algo que é maior do que somos neste momento ainda que sabendo e sendo plenamente o
que somos. O Self é mais simplesmente descrito como um centro de autenticidade, bondade
e inteireza interior, de essência.
O supraconsciente é o termo usado para designar a mais alta, ou mais profunda
região espiritual da psique. A diferença entre o supraconsciente e a personalidade
é de nível mais do que de natureza. Experiências supraconscientes consistem
fundamentalmente em uma conscientização que emerge da atividade que ocorre nos
níveis mais altos da consciência humana. Eles trazem consigo uma carga qualitativa
e transcendem nossa consciência habitual. Colocam-nos em contato com uma dimensão
atemporal e sem formas pré-estabelecidas, favorecendo uma percepção rara e preciosa
da realidade não plenamente conhecida por nós.
Podemos ver o Self como irradiando um campo magnético à sua volta que chamamos
de supraconsciente. Outra faceta do Self é ele nos servir como força diretriz que
nos guia. Baseada num princípio já colocado: o de que a pessoa tem consigo tudo
quanto necessita para crescer e desenvolver-se, inclusive as respostas para suas
questões pessoais, podemos dizer que cada um de nós possui uma fonte interior de
sabedoria. Esta fonte contém dentro dela um lugar de verdade escondido e geralmente
esquecido. À medida que essa fonte se desvela, emerge um senso de ser que permeia nossa
consciência.
Outro aspecto importante é o de revermos nossa relação com os outros. Habitualmente,
vemos as pessoas e os outros elementos da vida de um modo superficial e percebemo-los
como partes separadas de nós e um tanto quanto diferentes. Sentimo-nos como fundamentalmente
isolados dos outros; o contato com a dimensão transpessoal remete-nos de forma consistente
a um senso de solidariedade com todos os seres e com o fato de sermos essencialmente
parte de um todo maior.
Assagioli escreveu: "Uma concepção espiritual da vida é de grande ajuda. Tal
concepção capacita-nos a olhar para os seres humanos, nossos companheiros, não como
corpos ou personalidades separadas que é um fim em si mesmo mas como seres espirituais,
peregrinos do caminho da realização."
Diana Whitmore
(#) Diana Whitmore: Psicoterapeuta; MA em Educação Confluente, pela
Universidade de Califórnia; estudando PhD em Educação pela Universidade de Surrey;
fez treinamento didático com Dr. Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese; fez
treinamento de Psicossíntese Humanística no Instituto Esalen, Califórnia.
Presidente, e anteriormente Diretora Executiva, do "Psychosynthesis & Education
Trust" Centro de Psicossíntese de Londres, que foi fundado pelo Dr. Roberto
Assagioli em 1965; Diretora Fundadora do "COUI / UK - Children: Our Ultimate
Investment"; Vice-Presidente do Conselho do "COUI / USA - Children: Our Ultimate
Investment"; dirige atualmente o programa "Teens & Toddlers" para prevenção de
gravidez nas adolescentes; Membro do Conselho de Diretores do
"Findhorn Foundation College"
Com mais de 28 anos de prática de psicossíntese, ela treinou numerosos
profissionais em psicoterapia, aconselhamento e educação em toda Europa. Autora
dos livros "The Joy of Learning - A Guide to Psychosynthesis in Education" Ed.
Crucible / The Aquarium Press, UK - 1990 e "Psychosynthesis Counselling in Action"
Ed. SAGE Publications, London - 2000.
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