Do Eu ao Self: a trajetória evolutiva do Serpor Mariagrazia G. Sassi (#) (Palestra proferida em novembro de 1999 na PUC de São Paulo)
A Psicossíntese é uma abordagem transpessoal da Psicologia. Por “transpessoal” entende-se o que ultrapassa a dimensão do pessoal, ou seja, o que vai além da manifestação física, emocional e mental e o que inclui as potencialidades, as aspirações, as realizações e os valores. O “eu” pessoal é nossa identidade, nossa consciência incompleta. Ele manifesta nossa história enquanto pessoa, uma história de conteúdos e de fatos, nossa vida íntima e de relacionamentos. O “Self” é a nossa identidade enquanto poder energético, dando-nos, ao mesmo tempo, nossa especificidade, nosso verdadeiro projeto de ser, nossas potencialidades, aspirações, valores e realizações e a nossa consciência de unidade com o todo. Num primeiro momento, todos nós nos identificamos com aspectos parciais de nós mesmos, com os conteúdos da nossa vida diária. Somos a própria raiva quando recebemos uma ofensa, e o próprio prazer, se recebemos uma gratificação. Nós nos autodefinimos em função da casa em que moramos, do carro que possuímos, do papel que desempenhamos, dos afetos que nos cercam. Apesar do alto valor de todas essas coisas, é problemático colocar nelas a nossa identidade: são coisas que a vida nos deu e que, a qualquer momento, pode nos tirar. A Psicossíntese pessoal é o trabalho que fazemos para nos tornarmos mais conscientes de nós mesmos, desidentificando-nos de coisas externas – como nossos papéis sociais ou nossos bens, e também de conteúdos internos – como, por exemplo, nossas identificações com determinados sentimentos ou pensamentos. Atingir essa consciência de si mesmo, saber entrar em contato com a objetividade de um modo útil e construtivo, ser socialmente integrado, são conquistas verdadeiras e trazem paz e felicidade. O “eu” integrado pode escolher, através da vontade, olhar para aquilo que ainda não encontrou de si, ou seja, as suas potencialidades não expressas. Esse é o caminho do “eu” ao “Self”, que podemos comparar a uma encosta íngreme pela qual nos movemos e onde é absolutamente necessário não perder o contato com o dia a dia, segurando com uma mão algo que nos retém e procurando com a outra o próximo ponto de apoio. Um passo em direção ao “Self” exige uma mudança de estado de consciência. Cada estado de consciência tem seu modo de ler e entender a vida e, para mudar o estado de consciência, temos de estar dispostos a deixar o conhecido, os esquemas mentais pelos quais interpretamos a vida, pelo desconhecido. Para fazer esse caminho é preciso coragem! Coragem, essa qualidade transpessoal e outras, como a paciência consigo mesmo e com os outros, a serenidade, a criatividade e a seletividade, são necessárias a todos nós nesse percurso; o desafio é libertarmos-nos de nossas amarras e aprendermos a desenvolver essas qualidades na prática do cotidiano. São os obstáculos humanos, como o medo, a avidez, a inércia e a inveja que se exprimem em cada um de nós, nutrindo a nossa problemática pessoal e tornando-se os fatos encontrados em nossas vidas pessoais. Trabalhar as amarras exige reconhecer estes obstáculos dentro de nós e não nos sentirmos vítimas dos eventos externos. Nesse percurso, o “eu” deve ter poder de autocontenção e autogestão e esse poder interior é a vontade, no sentido que Dr. Assagioli propõe para esta palavra. É a vontade, com seus aspectos de força, sabedoria e bondade, que impulsiona os sucessos, que traz firmeza nas contrariedades e que faz com que enfrentemos as dificuldades de maneira sensata. É com a vontade que o “eu” se mantém orientado ao seu projeto, mesmo que não o conheça, e que ele se torna livre para manifestá-lo. Desenvolvendo a vontade, o “eu” muda; transforma sua relação com o passado e o futuro. A vida não é apenas responder aos estímulos externos, mas transformar-se em escolha centrada e sábia, baseada naquilo que será o melhor. O “eu” integrado à individualidade não se torna egocentrismo, a abertura não é a perda de limites; nosso "eu" pode se sentir um com o todo sem perdermos a identidade individual que nos torna únicos. O “eu” torna-se o espelho no qual o projeto do “Self” se reflete sem se deformar. Tudo isso é conquistado e estabilizado no fascinante e perigoso processo que é o caminho do "eu" para o Self. Essa expansão de consciência é uma felicidade a ser conquistada! (#) Mariagrazia G. Sassi, Ph.D., é psicoterapeuta, professora e
supervisora; diretora do Centro de Psicossíntese de Bologna
(Itália), vice-presidente da “EFP – European Federation for Psychosynthesis”,
membro da “SIPT – Società Italiana di Psicosintesi Terapeutica”,
psicóloga e supervisora dos Programas de Pós-Graduação em Terapia Musical da
Bristol University (U.K.), campus de Bologna. |
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