O Espírito da Psicossíntese  

depoimento de Diana Whitmore (#)

 

O texto a seguir é o depoimento que Diana Whitmore (então Diana Bechetti) preparou após o contato de vários meses que ela teve com Dr. Roberto Assagioli na Itália, em 1974. [nota do Redator]

 
[Obs.: Este artigo já foi publicado no Boletim do CPSP No. 29.]

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"Tudo lhes é possível e acessível: felicidade, serenidade, eu lh'as ofereço de presente"
Roberto Assagioli

Roberto Assagioli foi um discípulo de Freud e um contemporâneo de Jung. Foi o pioneiro da Psicanálise na Itália, mas rapidamente viu suas limitações. A psicanálise não abrangia os aspectos mais elevados do homem - criatividade, inspiração, compreensão espiritual, nem valores mais elevados como amor, compaixão, alegria, sabedoria - nem reconhecia a procura existencial do homem de seu significado: uma procura que Assagioli acreditava ser um anseio da natureza humana tão básico e orgânico quanto qualquer necessidade instintiva ou biológica. Já em 1910, Assagioli começou a formular uma teoria holística do homem, abrangendo os fundamentos de Freud, mas também procurando alcançar as estrelas.

Ele ressaltou as diferenças entre sua visão do homem e a de Freud numa entrevista publicada em "Psychology Today" em dezembro de 1974: "Em uma de suas cartas, Freud disse: 'Só estou interessado no porão do ser humano'. A psicossíntese está interessada em todo o edifício. Nós tentamos construir um elevador que permitirá às pessoas um acesso a todos os níveis de sua personalidade. Além disto, um edifício que tenha só porões é muito limitado. Nós queremos abrir os terraços onde se possa tomar um banho de sol ou olhar para as estrelas. Nossa preocupação é a síntese de todas as áreas da personalidade. Isto significa que a Psicossíntese é integradora, global e inclusiva."

Qualquer ensinamento só é tão válido e pessoal para aquele que o criou. Teorias eloqüentes e modelos do desenvolvimento do homem necessitam o acréscimo da vivacidade para retratar fielmente a realidade da vida. Essa vivacidade é freqüentemente chamada de essência ou espírito desses ensinamentos. Assagioli foi uma pessoa que incorporou completamente o espírito e a alma de seus ensinamentos.

O que era esse espírito? Quem era esse homem? Fiz a mim mesma essas perguntas antes da minha visita ao velho sábio em Florença. Não foram os modelos importantes, nem a sua aplicação útil que me levaram à Itália; por ter uma formação ampla e sofisticada na área de potencial humano, eu estava tipicamente auto-suficiente e sabedora de tudo - e psicossíntese era, eu pensava, só outro "truque" a acrescentar no meu sempre crescente equipamento de trabalho. Eu não teria viajado até a Itália para isto. Entretanto, senti intuitivamente que aquele homem tinha uma qualidade única e... não fui desapontada. Desde o primeiro momento, o encontro com Assagioli me trouxe uma surpresa inesperada.

Entrei na sua sala e encontrei um homem magro e frágil de cabelos e barbas brancos, elegantemente vestido num casaco de veludo sobre uma camisa branca e uma gravata.

Sua sala estava em harmonia com um homem de humanidade, dignidade e cuidado. A mobília era pesada e antiga, mas simples e havia estantes cheias de livros em cada parede. Na sua mesa, tinha uma pequena bandeira das Nações Unidas simbolizando a unidade da humanidade e havia também algumas pedras de cores e formatos interessantes. Havia na sala rosas novas e perfumadas. Mais tarde, fiquei sabendo que, para ele, a rosa era um símbolo do espírito, e o amor espiritual era representado por vasos e cálices antigos.

O desenho de um artista que mostrava o Monte Fuji, rodeado de nuvens, servia como uma lembrança da altura que o espírito humano pode alcançar e as fotografias de galáxias nas paredes enfatizavam a insignificância do universo.

O entardecer da sua vida foi bom, sereno, cheio de graça. Sob a sua orientação, durante o tempo em que estivemos juntos, eu pude libertar-me da minha escravidão de inseguranças e medos. Meu espírito explodiu em ação - muitas áreas negativas pareceram derreter. Eu não sei como ele me levou a esse resultado - simplesmente por ser quem ele era, eu acho.

Pela sua maneira de ser, ele exemplificava o que, em termos de Psicossíntese, é chamado Self - o centro nevrálgico, dinâmico e transcendente, radiante de consciência, pleno de amor e dotado de vontade. Este Self é a fonte da individualidade e universalidade, a centelha tanto da unidade de cada um, quanto da união de todos os seres, que formam o grande todo que é a humanidade. Assagioli afirmava que o objetivo do homem é manifestar completamente essa essência ou Self na vida diária.

Aos 14 anos, enquanto ele velejava no Lago Gênova, tomou uma resolução que direcionou sua vida. "Estar sempre presente ao meu Self". Ao longo dos anos, ele tornou-se mestre nisto e, portanto, também em estar totalmente presente a qualquer pessoa que encontrasse - Self, eu para a divindade, essência para essência. Este foi o presente que Assagioli deu aos seus alunos, repartindo a Psicossíntese com cada um como se fosse a primeira vez que ele a concebia ou que falava de suas idéias. Ele me honrou como havia honrado a todas as outras pessoas que tinha encontrado, grandes ou pequenas. Relacionou-se com a bondade essencial em cada uma delas sem levar em consideração suas qualidades mundanas.

Ele me ensinou que olhando minha personalidade "à luz do Self ", meus problemas ganhariam nova perspectiva. "Olhe as galáxias", dizia ele, as estrelas no céu da noite... reflita sobre elas também, nós não temos que resolver problemas, mas que aprender com eles. Como você encara seu lado escuro? Assumindo-o e aceitando-o, nós podemos então superá-lo e ele deixará de existir, restará somente uma sombra.

"Não há problemas", diria ele, "somente tarefas e oportunidades". Pela sua atitude, eu aprendia a "abençoar o obstáculo", a tomar meus obstáculos como trampolins, a aprender as lições que a vida me ensinava, em vez de encarar meus problemas como fenômenos negativos a serem eliminados.

Assagioli afirmava que a qualidade da felicidade completa (joy) é a qualidade mais próxima do Self real. Acredito que ele estava certo, pois quando estou feliz, manifesto - o que em mim sinto mais real, mais essencial - minha fagulha particular de divindade. Ele evocou em mim somente aquilo que já existia no domínio que ele definiu como supraconsciente, ou o inconsciente mais alto do homem, do qual todos os nossos impulsos superiores se originam: amor altruístico e vontade, ação humanitária, inspiração artística e científica, insights filosóficos e espirituais e a motivação para a razão de ser e significado da vida. Ele nunca negou sua base humanitária, nem se esforçou para suprimi-la; cada momento era para ele uma melodia de felicidade. As pessoas ao seu redor tendiam a reverenciá-lo no estilo formal italiano, mas ele preferia piscar os olhos, rir ou dançar em torno de sua sala quando não havia ninguém olhando, apesar do seu corpo estar torcido de artrites. Ele não gostava de ser idealizado. Era um grande alívio para ele que eu o tratasse como a um igual e não como a um deus.

Apesar de seu corpo estar velho e frágil, ele não o submetia a abstinências - os chocolates que lhe eram proibidos de comer ficavam habilmente escondidos nas dobras de seus lenços numa gaveta, com a cumplicidade de um "co-conspirador" como eu freqüentemente me tornei.

Ele se divertia ludibriando os doutores e, como uma criança, recusava-se a permitir que sua espontaneidade fosse abafada.

Sim, ele também era como uma criança (não infantil) na sua reverência e admiração pelo universo e pelos homens enquanto, ao mesmo tempo, possuía a sabedoria da velhice e a graça de ter vivido uma vida plena e rica.

Eu me lembro de sua vivacidade e senso de humor. Quando me dirigia na meditação, ele me dizia rindo para acalmar minha "mente travessa" para que pudéssemos "abrir nossas asas de inspiração e voar em direção ao Self ". Deste modo, ele me deu a compreensão básica da confiança positiva no processo de evolução, da cooperação e fluidez com a vida, e da positividade existencial. Este era seu presente para aceitar seus presentes.

E quando o trabalho de Assagioli estiver mais largamente disseminado e compreendido, ele sem dúvida tomará seu merecido lugar ao lado de outros grandes pioneiros que contribuíram para o nosso conhecimento de nós mesmos, da nossa natureza e do nosso relacionamento com o universo.

Diana Whitmore      

(#) Diana Whitmore: Psicoterapeuta; MA em Educação Confluente, pela Universidade de Califórnia; estudando PhD em Educação pela Universidade de Surrey; fez treinamento didático com Dr. Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese; fez treinamento de Psicossíntese Humanística no Instituto Esalen, Califórnia.

Presidente, e anteriormente Diretora Executiva, do "Psychosynthesis & Education Trust" Centro de Psicossíntese de Londres, que foi fundado pelo Dr. Roberto Assagioli em 1965; Diretora Fundadora do "COUI / UK - Children: Our Ultimate Investment"; Vice-Presidente do Conselho do "COUI / USA - Children: Our Ultimate Investment"; dirige atualmente o programa "Teens & Toddlers" para prevenção de gravidez nas adolescentes; Membro do Conselho de Diretores do "Findhorn Foundation College"

Com mais de 28 anos de prática de psicossíntese, ela treinou numerosos profissionais em psicoterapia, aconselhamento e educação em toda Europa. Autora dos livros "The Joy of Learning - A Guide to Psychosynthesis in Education" Ed. Crucible / The Aquarium Press, UK - 1990 e "Psychosynthesis Counselling in Action" Ed. SAGE Publications, London - 2000.

 

 

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Centro de Psicossíntese de São Paulo

Centro de Estudos, Vivências e Autoconhecimento
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